O segredo mais bem guardado de Portugal

Em 1419, quando os marinheiros portugueses passaram por uma ilha desabitada do Atlântico Norte, a cerca de 500 milhas da costa africana, ficaram maravilhados com a densa cobertura de vegetação. Mesmo hoje, após 600 anos de invasão humana, seu espanto é fácil de entender. A variedade da flora é impressionante: bosques de mogno local, arbustos de lírios indígenas do vale e uma floresta de loureiros, a maior relíquia sobrevivente da vegetação que cobria grande parte do sul da Europa há pelo menos 15 milhões de anos. Os primeiros homens que chegaram à ilha chamaram-na de Madeira.

Mas aqueles marinheiros do século 15 talvez fossem indiferentes ao que mais nos impressiona quando se visita a ilha pela primeira vez: a presença insistente do oceano. Madeira – a maior ilha de um arquipélago com o mesmo nome – é tão íngreme que, mesmo no interior, quando se caminha por um vinhedo ou se janta na encosta de uma colina, a água brilhante emoldura a vista.

Na capital, Funchal, no litoral sul, os hotéis e restaurantes aproveitam ao máximo uma vista que nunca se torna monótona. Mas no nível do solo, caminhando ao longo das calçadas decoradas com mosaicos creme e preto tradicionais, ainda é possível se distrair por vãos entre os edifícios que oferecem reflexos inconstantes de azul. O Atlântico afeta o clima, a vida selvagem e a alimentação.

Cada viagem de barco, natação e caminhada de tirar o fôlego no topo da montanha, enquanto se inala sal e se admira o tom azul-celeste das ondas, lembra-nos que o Atlântico moldou a existência do vinho da região. E o vinho, principal produto de exportação da Madeira há mais de 400 anos, mudou profundamente o destino da sua pátria.

Durante séculos, até ao advento das viagens aéreas, quase toda a gente parava na Madeira. Colombo viveu brevemente na ilha. O capitão Cook fez uma pausa para suprimentos, navegou para o Rio de Janeiro e para a Terra do Fogo e acabou plantando uma bandeira britânica no leste da Austrália. No caminho para a América e as Índias Ocidentais, comerciantes e exploradores compraram barris de vinho Madeira e descobriram que este não sobrevive apenas a uma viagem marítima: melhora. A acidez perdura, os sabores de nozes e caramelo aprofundam-se. Em uma época em que o vinho que viajava geralmente chegava como vinagre, isso era incrível. E os madeirenses enriqueceram com a resiliência do seu vinho.

Ao contrário de outros vinhos, a Madeira dura quase indefinidamente. Sobraram Madeira – ricas, agridoces, absolutamente bebíveis – que foram feitas na época em que John Blandy chegou da Inglaterra para fundar a vinícola que ainda leva o seu nome. E isso foi em 1811.

Então prepare-se para apreciar o mar, conversar com os locais e degustar o que pode ser o melhor vinho que você já tomou. Vá à ilha da Madeira!

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